20 de abril de 2008

AS CRÔNICAS DO GATO E O COELHO II - NÃO CHORE


BRILHE MAIS FORTE SOL, PARA OFUSCAR O UNIVERSO.

- Não chore – disse o coelho levemente aflito.
- Minhas lágrimas o tempo há de secá-las com o lenço do esquecimento – retrucou o gato.
- O tempo está muito velho e cansado de jogarem este tipo de fardo em suas costas.
- É porque ainda não inventaram remédio melhor.
- Difícil imaginar o que está sentindo...
- É como se uma clave de espinhos que se expande e dança dentro de meu coração a cada lembrança que atravessa minha mente; retalhando mais e mais sem descanso ou intervenção.
- Deve ser muito ruim mesmo...
- As cores se tornam pálidas ao desfalecer mútuo de meus órgãos, o gosto torna-se serragem ao meu paladar, o único gosto além deste que sinto é o do sal de minhas lágrimas.
- Talvez esteja exagerando um pouco...
- Exagero é amar sem ser correspondido! Quem já amou sabe a dor que é amar e perder, ou até pior; nem ter a pessoa amada! Ninguém pode julgar o que é amor se não está sentindo o próprio; cada um sabe o que é sentir a própria dor descer-lhe a garganta e explodir no coração. Ninguém tem direito nem conhecimento para julgar o amor dos outros. Quem fala alem disso é um ignorante, arrogante e cego; ninguém pode impor limites ao o que é amar. Não é algo que possa ser definido.
- Realmente não sei o que é isso.
- Nunca amou ninguém?
- Sempre fechei-me para estas coisas; tenho outras coisas para pensar; não tenho tempo para perder sofrendo. Vejo sua dor e a compartilho, é o bastante para mim.
- Não pode dizer que é o bastante sem viver isso.
- E afogar-me em lágrima assim como você?
- A cada morte em lágrimas renascemos das cinzas mais forte que nunca.
- Me conformo com o que tenho.
- Pois eu não. Busco sempre a estrela mais alta.
- De que adianta buscar a estrela mais alta e cair?
- Talvez na queda aprendamos a voar.
- Ou aprender a cair.
- Também é uma experiência válida.

Passos miúdos cortam a conversa dos dois amigos. Era um pingüim.

- Que caras mais tristes são estas? – pergunta o pingüim.
- Meu amigo gato esta sofrendo de amor.
- Amor? Mas não há motivo para se sofrer no amor!
- Quando não se é correspondido sim – retrucou o gato.
- Talvez possa ajudá-lo! – exclamou o coelho.
- Ajudá-lo como? Não há o que dizer, o amor é algo belo, coisas belas não nos fazem sofrer.
- Diga isso ao meu coração. O amor entrou pelas veias dos meus sentimentos descuidados e infectou meu corpo inteiro. Minha cabeça gira, meu coração dói, minhas mãos suam, minhas pernas tremem, meus pulmões falham, meu corpo estremece.
- Se encarar como doença, certamente lhe será.
- E não há cura? – perguntou o coelho.
- O próprio amor é a doença e também sua própria cura.
- Como posso usá-lo como cura?
- Meu rapaz, nota-se que é um jovem muito inteligente e vivido. Há certas coisas neste mundo e nos outros também que não devemos procurar respostas complexas; as coisas do coração são complexas, mas suas respostas são simples. É questão de saber interpretar a sua própria realidade, aprender com seus próprios erros, coisas que são óbvias, mas por isso mesmo só as enxergamos por último, pois queremos sempre complicar e dar uma solução lógica pra tudo. Não percebe que existem exemplos em nossas vidas e nas dos outros que temos que aprender? A vida é uma constante aula de aprendizado, só que temos que prestar atenção ou seremos reprovados! Existem tantas coisas para se aprender, somos eternos aprendizes! Há tanto para se aprender... Tantas histórias...

Dito isso, o pingüim olha para o céu fixamente.

O que está olhando? – pergunta o coelho.
O sol. – responde o pingüim.
Enxugando suas lágrimas o gato pergunta:
- Que tem ele?
- O sol está apaixonado pela lua.
- Apaixonado?
- Sim. Se amam em segredo. O universo conspirou para que eles se separassem. Separou o dia da noite para que nunca se vissem. Porém o sol continua sempre em busca da lua; todos os dias ele dá a volta da Terra em busca de seu verdadeiro amor. Ele só conhece um caminho para chegar até ela: leste a oeste. Mas o segue insistentemente. Há ocasiões em que conseguem se encontrar e desligam suas luzes para se arder em seu amor, mas o universo conspira novamente para separá-los. E eles não desistem.
- Como eu poderia aprender com isso? – pergunta o gato.
- O amor existe. Não tenha pressa e siga o caminho que você conhece, no meio dele você encontrará quem te merece e quem te ame. Poderá dar muitas voltas, você pode encontrar o seu amor várias vezes até o dia em que fiquem juntos pra sempre e sejam um só. As voltas podem ser longas e o caminho duro, mas tenha a convicção de que você encontrará, pois em algum lugar deste caminho o amor estará te esperando, como sempre esperou a vida inteira. E poderão atravessar juntos todas as pontes de esperança e cruzar todos os amanhãs e finalmente encontrar o bom futuro.
- E se o universo conspirar? – pergunta o gato.
- O universo é infinito, mas saiba que o amor também é. E pode vencê-lo facilmente se realmente for verdadeiro. Agora tenho que ir. Meu amor me espera. Nós pingüins temos muita sorte, encontramos sempre o amor de primeira!
- Adeus! E obrigado por tudo!

O pingüim acenou e começou a diminuir-se no horizonte alaranjado ao pôr-do-sol.

- Hey! Espere! E se houverem outros amores pelo caminho!?
- Haverão! É um ciclo natural!
- Como farei pra saber qual é o amor de verdade!?
- Você saberá meu caro! Você saberá!

Os dois amigos ficam olhando o pingüim desaparecer completamente das vistas em silêncio.
Com o cenário alaranjado do pôr-do-sol o coelho pergunta:
- Que faremos agora?
Limpando a última gota que escorria de seus olhos, o gato sorri e responde:
- Vamos caminhando. Há muito que se viver ainda.


- Vinícius Neves
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