20 de abril de 2008

AS CRÔNICAS DO GATO E O COELHO I - PONTE


PONTE, AONDE NOS LEVARÁ?

Um gato e um coelho conversam na terra do ‘Hoje’:

- Que ponte é essa? – indagou o coelho.
- É a ponte da esperança. – respondeu o gato.
- E até onde leva?
- Não sei ao certo. Sei somente que leva à outra terra, levemente parecida com esta, mas tem um contexto e um significado bem diferente.
- E qual o nome desta terra tão misteriosa?
- Chamam de ‘Amanhã’.
- Como sabe tanto dessas coisas? É somente um gato.
- Sou um gato de rua; poderia ter sido criado com requinte, mas preferi a liberdade. Ouço todas as histórias, conheço muitas pessoas e viajo por muitos lugares.
- E o que você pretende fazer?
- Não sei. Tudo que vemos aqui é muito bom, mas quero descobrir o que há além da ponte.
- Mas ela é muito longa para se andar.
- Nem tanto. Acho que até o final do dia poderemos chegar até o seu final, desde que não nos apressemos. Dizem que quem tem pressa faz demorar mais sua chegada.
- Que estranho.
- Realmente.


Os dois olham para o horizonte além da ponte, mas pouco enxergam. O gato comenta:

- O mais interessante é que esta terra desconhecida do ‘Amanhã’ faz parte de um continente ainda mais desconhecido.
- Sério? Qual?
- Chamam de ‘Futuro’.
- Já lhe disseram como é?
- Ninguém sabe. Só fazem planos e imaginam. Ninguém pode garantir como realmente será.
- E depois desta terra, o que há?
- Outra ponte. Leva para outro ‘Amanhã’. Mas é o ‘Amanhã’ do ‘Amanhã’.
- Parece confuso.
- Na verdade é bem simples.
- Mas então é muito mais longe!?
- É. Depois desta outra ponte haverá outra ponte, e outra, e outra, e outra... até chegarmos no final do ‘Futuro’.
- Só de pensar me cansa!
- Pode até ser, mas não posso ficar aqui parado sabendo que há tanto para se ver além desta ponte.

Dito isso, o gato deu alguns passos à frente; olhando para trás pergunta ao coelho:

- Você não vem?
- É tão longe. Só de pensar me dá sono e fome também. E se não houver o que comer lá? Aqui tenho quase tudo o que preciso.
- Quase tudo?
- É. Tenho um lugarzinho que posso viver; tenho algumas cenouras para comer; alguns galhos e buracos na terra onde posso me esconder quando necessário.
- E pretende viver o resto de sua vida assim? Engordando, dormindo e se escondendo?
- Não é muito honroso; mas é o que tenho.
- Não te passa pela cabeça de que além da ponte pode haver algo melhor para nós?
- Passa, mas e se não houver?
- Haverá outro ‘Amanhã’. Só atravessando a ponte para descobrir!
- Tudo bem. Se não me agradar eu volto.
- Não pode voltar.
- O que? Por que não?
- Esta ponte é só de ida. Quem a atravessa não pode voltar.
- E como faz depois?
- Só há esta ponte; ou permanece onde está, ou prossegue.
- E você me deixaria aqui sozinho?
- Alguém tem que prosseguir.
- Então vou junto, mesmo sem querer ao certo ir.

Sorrindo o gato exclamou:

- Ótimo! Está com sua mochila de erros?
- Sim. Sempre carrego comigo.
- Muito bem; então a deixe aqui, ela pesa demais e isso nos atrapalhará em nossa viagem. Leve apenas a sacola de aprendizado que está dentro dela; nos será muito útil.
- E se realmente não tivermos idéia nenhuma do que nos aguarda? É uma terra misteriosa de incertezas, e não sabemos o que pode acontecer.
- Isso mesmo! Está começando a entender tudo! É aí que está a graça! Enquanto não soubermos de nada, TUDO pode acontecer!
- E se acontecerem coisas ruins?
- Nas coisas ruins também existem recompensas boas! É tudo um emaranhado de novas possibilidades; uma nova aventura a cada alvorecer!
- Então prossigamos. A caminhada é longa.

- Vinicius Neves
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