6 de outubro de 2008

AS CRÔNICAS DO GATO E O COELHO V - UMA RAZÃO PARA VIVER




A NOITE CAÍA COMO UMA RELÂMPAGO


O gato andara pensando muito em toda sua vida, um flashback em câmera lenta o açoitava por dentro de uma forma tão envolvente que nem percebera que a noite tinha chegado e que estava sozinho no meio de uma clareira escura, e uma floresta terrivelmente tenebrosa. As árvores pareciam ser cinzas, e as folhas negras, a lua ao contrário de tudo o mais que se via, era alva e reluzente o bastante para iluminar a clareira de modo que podia-se ver muito bem seu perímetro.


Apesar da lua diminuir a escuridão que o cercava, não foi o bastante para evitar que seus pêlos arrepiassem e começasse a sentir medo.


- Que lugar frio e estranho é esse a qual vim parar. - Comentou o gato de si para si.
O mais sensato era aguardar a noite passar e recomeçar sua solitária jornada ao amanhecer, assim que as primeiras gotas de orvalho escorrerem com a luz do sol.


O gato tentou lançar para longe os pensamentos ruins:


- Que besteira, porque haveria eu de ter medo de uma noite linda como esta?
Quando o gato preparava-se para deitar sonolento, ouviu um barulho estranho vindo de algum lugar perto, o qual não pôde distinguir.


- Que barulho foi esse!? - Comentou o gato perplexo.


O barulho chegou a se intensificar e um forte vento o empurrou por de trás dos ombros.


- Quem está aí!? - Gritou o gato, começando a juntar a irritação com o medo.


- Desculpe senhor... - Dois olhinhos se refletiram na escuridão, acompanhados de uma voz tão doce quanto a brisa leve de verão - É que eu senti algo me seguindo - os olhos iam de encontro ao gato e de pouco em pouco a luz da lua revelava um ser que fez com que os olhos do gato abrissem como nunca, era uma linda e delicada gata. - Estou cansada, com fome, com medo, e com frio; já não encontro razão para viver, caminho sem êra nem bêra, sou uma desiludida do mundo, uma rejeitada da felicidade; não conheço o senhor, se for me fazer mal, não tenho mais o que perder; se for fazer bem, faça por opção, não por imposição.


O gato ainda calado, mal conseguia expressar uma palavra sequer, e com grande esforço conseguiu proferir: - Po...po...por favor, de m-maneira alguma, não desejo lhe fazer mal algum, também sou um andarilho esquecido pelo mundo.
O gato conseguiu passar um segurança muito forte para aquela bela felina depois desta frase. Ela o olhou de perto, apesar de um pouco suja, era linda, de um cinza claro, quase chegando ao branco, os olhos azuis e profundos como o mar fizeram com que o gato se afogasse dentro deles.


- Se importa se eu deitar ao seu lado?


- Co-como?


- Está frio, juntos nos aqueceremos.


- Claro... Você está certa.


O gato lamentava não poder haver algo a mais que poderia aquecê-los. De repente algo pequenino brilhou em sua frente, e uma faísca em meio a galhos secos fez com que uma fogueira se acendesse.


O gato sentiu como se por um exatamente um milésimo de segundo algo voara por cima deles clareando tudo ao seu redor. Porém somente ele percebeu, e a gata que se distraía com a luz do luar pensou que a fogueira tinha sido obra de seu companheiro.


O gato não comentou o incidente.


A gata se encaixou perfeitamente ao corpo do gato, que suspirando disse:


- Você sempre andou sozinho?


- Nem sempre. Tive amigos, mas precisei deixá-los.


- Todos necessitamos traçar nossos próprios caminhos de vez em quando.


- Sim...


- Eu também tive uma família, mas o mundo os arrancou de mim, sou órfã da vida e filha do mundo que me rejeita.


As palavras da gata entravam tão mansamente no coração do gato, que este sentia como se a conhecesse a muito tempo; conversaram por cerca de duas horas, e a cada minuto o gato tinha mais e mais certeza que é como se a vida dela o completasse desde séculos atrás, séculos e séculos atrás, como se todas as vidas que o gato poderia ter fossem feitas para completar com as vidas dela.


- Você de longe é a pessoa mais maravilhosa que já atravessou o meu caminho. - Disse a gata com voz sonolenta, sentindo uma felicidade incomum.


O gato se envergonhou.


- Não sei se temos mesmo mais de uma vida, nem se há um futuro grandioso na morte, mas creio que...


O gato se espantou em ver que sua companheira tinha adormecido, não conseguira agüentar a exaustão.


O gato ficou a simplesmente olhá-la com ternura por mais ou menos uma meia hora.


Quando estava quase caindo no sono, viu um vulto passar por detrás dele.


O vulto parecia se multiplicar, e a cada segundo parecia que os estava rodeando cada vez mais. Um vento estranho e forte começou a soprar de todos os lados.


Um assombro tomou conta do coração do gato, que só pôde roer os dentes com os olhos cansados e arregalados a espreitar o seu redor.


Um dos vultos pousou em sua frente, porém todos os outros escondiam-se atrás das arvores e vez ou outra voavam acima deles.


A gata não acordou.


O vulto que estava à frente deles de pouco em pouco ganhou um pouco de forma, era uma nuvem negra que parecia mais um lobo com longos dentes, e olhos cor-de-sangue.




O gato assustado olhou para sua amada, e ela ainda não acordara depois de todo aquele estrondo.
- Ela não vai acordar até o amanhecer, está exausta, não dorme a dias e finalmente encontrou um repouso, sendo este em seus braços. Claro que também demos uma "ajudinha" para que não acorde. - Disse o lobo com uma voz rouca e repugnante.


- Quem é você, e o que você quer? - Disse o gato apertando os dentes e os olhos.


- Sou o que chamam de "Devorador", "Sanguessuga", "Carniceiro", me alimento das almas atormentadas da noite; estes ao meu redor são minha legião, dispostos a destruir qualquer um ao meu menor sinal. Fique tranqüilo que não temos nada com você (por enquanto), viemos perseguindo esta que repousa em seus braços


- Porque?


- Não temos motivo para isso, somente odiamos vocês que pisam sob a terra, pois pisam em nosso teto, como se fossemos vermes. Nossa sina é fundar a destruição. - Continuou o lobo se esquivando vorazmente de uma fagulha da fogueira e lançando-lhe um olhar de desprezo.


- Não deixarei que vocês a levem - Disse o gato enraivecendo, contorcendo os músculos e cerrando os olhos.


- Queimem ele! - Gritou uma voz rouca por detrás das árvores.


- Vamos escalpelá-lo! - Gritou outra voz mais fina.


Com um sorriso sarcástico, o lobo disse:


- Calma senhores, não vamos nos exaltar, tenho plena certeza que nosso pequeno amigo ainda não se deu conta de com quem está lidando; somos os senhores de Ilusão! E de todas as cidades dos desgraçados! Já disse, não temos nada contigo, tua hora virá, mas esta não será agora.


- Nem a minha, nem a dela. - Insistiu o gato apertando cada vez mais forte os dentes, protegendo a frágil gatinha.


- Você não tem escolha, somos muitos.


- Posso não ter escolha de vencer, mas tenho a de lutar. Mesmo que tirem o meu couro, cortem minha língua e arranquem minhas garras. - Disse o gato deixando as garras à mostra.


Todos os vultos pararam. O lobo fitava atentamente o gato, depois desatou a rir, os vultos deram risada logo em seguida.


- Como pensa em nos atacar?


- Vagueei por muito tempo nesta terra à procura de algo que me complete, algum sentido profundo nesta vida infundada; tive que abandonar grandes amigos para compreender a mim mesmo, encontrar meu próprio caminho e encontrar algo que fizesse minha vida valer a pena.


- E ela vale sua vida? - Disse o lobo enfurecendo-se.


- Se não vale minha vida, valerá a minha morte! - Disse o gato saltando de encontro com o lobo. Os dois seguiam um de encontro ao outro como numa batalha épica. O gato bateu com fúria em galho que ardia na fogueira, fazendo-o voar contra os olhos do lobo, que em um acesso de dor caiu para trás com os olhos fechados e agonizando.
- Meus olhos! Meus olhos! Isso queima mais que o inferno!
Todos os outros vultos sobressaltaram e ficaram a olhar pasmados de cima das árvores para aquela cena.
- Fogo não nos atinge! Como pode ser!?
- Idiotas! - Disse o lobo reerguendo-se com dificuldade. - Isso não é um fogo qualquer!
O gato notando o medo deles, pegou o mesmo galho como tocha.
- Se algum dos miseráveis ousar se aproximar, farei um holocausto de lobos! - Disse o gato queimando sua pata na brasa viva. - Já disse que eu estou cuidando dela, seres da noite! Estou avisando!
- Peguem ele.
Todos os vultos saltaram para cima do gato.
Este levantou a tocha o mais alto que pôde, esta brilhou como o sol, transformando por um momento a noite em dia.
Todos eles desapareceram aos gritos.
O gato amarrou um pedaço de pano velho na pata, deitou-se e encostou o corpo da gata junto ao seu, o dia já começara a amanhecer, e ele quase caíra de sono guardando o sono de seu amor.
Ficou um tempo olhando para ela com um carinho que nunca pensara em sentir na vida. Ele acariciava seu rosto como se ela fosse feita de pétalas de rosas, ou algo da mesma fragilidade.
Ela acordou e olhou para ele com ternura.
- Bom dia.
- Bom dia.
- Dormi muito?
- Não mais que o necessário.
- Desculpe, deixei você conversando sozinho, não aguentei o sono; você disse que estava procurando por uma razão para viver...
Olhando docemente a gata com os olhos cheios de lágrimas o gato respondeu:
- Não estou mais...



- Vinicius Neves
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