7 de outubro de 2011

COMO ANDAR DE BICICLETA


Quando eu era criança, adorava andar de bicicleta.
Para mim era um simbolo de liberdade, porque eu praticamente só saia de casa para pedalar.
Eram quilômetros e quilômetros por dia, passei por lugares que nunca tinha ido antes, geralmente com os amigos. Quando estávamos em nossas bicicletas, mal conversávamos, era um tempo quase que individual, de vento no rosto, de descer ladeiras íngremes na maior velocidade que conseguíssemos chegar.

Uma vez enquanto já ia guardando minha venerada bicicleta em casa, dois amigos me chamaram para dar uma última descida na ladeira que havia quase no final da nossa rua.
Eu queria guardar a bicicleta e ir pra casa comer biscoito e assistir desenho, mas o vício daquela sensação de liberdade falou muito mais alto.
Então mais uma vez me lancei ladeira abaixo para me sentir no limite da minha própria velocidade.
Enquanto descíamos a ladeira, meus dois amigos iam em um lado da rua e eu do outro. Foi quando avistamos um cachorro vira-lata distraído no meio do caminho, e meus amigos estavam em direção a ele na maior velocidade possível.
Entenda que na velocidade que estávamos, e na condição de nossas bicicletas (praticamente sem freio algum), nós três começamos a gritar para o cachorro sair da frente. O cachorro finalmente viu os dois e se assustou, fugindo do caminho deles... e indo em minha direção, sem notar que eu estava descendo pelo outro lado da rua.
Freei como pude, mas foi inevitável, acabei atropelando o desavisado cão.
O cachorro? Ah, na hora do impacto ele se abaixou e houve um latido de dor, mas dias depois fui visitá-lo e não houve dano algum com ele.
E eu? Bom, aí a história foi um pouco diferente. Por conta do "obstáculo" em meu caminho e a freiada desesperada, a minha amada bicicleta acabou saindo do chão, virando no ar, fazendo com que eu caísse de cara no asfalto.
Curiosos e meus amigos vieram logo acudir. Tentei tirar a bicicleta de cima de mim e notei que meu braço direito simplesmente não se movia. Porque? Coisa besta, simplesmente consegui a façanha de quebrar minha clavícula (esse osso comprido que fica entre o pescoço e o ombro), tirando assim o movimento de todo o meu braço.
Resultado: meses usando uma tipóia que incomodava muito e me fazia sentir o Quasímodo do "Corcunda de Notre Dame".

Passado o tempo de adaptação, talvez alguns desistissem da idéia de andar de bicicleta (já ouvi histórias de pessoas que desistiram por muito menos), mas eu não. Andar de bicicleta era o meu momento favorito do dia, e para uma criança - acredite em mim - eu tinha problemas o suficientes para querer esquecer de todo o resto do mundo.

Então obviamente me aventurei em cima da magrela denovo, e foi maravilhoso como sempre.
Porém, recebi uma advertência de meu queridíssimo pai: "Se você cair novamente de bicicleta, você estará proibido para sempre de andar nela". Meu pai sempre fora um homem muito severo e nunca voltava atrás com suas palavras. Aquela fora a pior ameaça que poderia ter recebido dele.
Mas aí eu parei, diminui ou deixei de andar como antes? Que nada! Continuei na loucura de pedalar o mais rápido que eu podia por todas as ruas do meu bairro e dos bairros vizinhos!
Foi quando num erro besta, descendo a rua de casa, uma ladeira simples, quase reta, foi que eu passei por cima de uma lombada a toda velocidade e perdi o controle da bicicleta.
Cai novamente de cara no chão, mas dessa vez foi algo relativamente mais simples, apenas ralei muito feio o ombro direito ao ponto de deixa-lo em carne viva.
Quando levantei, fui até minha casa, minha mãe viu o ferimento e eu comecei a chorar muito, muito mesmo. Ela me perguntou se estava doendo e eu disse "Está, mas não é por isso que estou chorando. Estou chorando porque quando o pai ver esse machucado, ele nunca mais vai deixar eu andar de bicicleta".

Quando algo é importante para nós, não há dor maior neste mundo do que a idéia de perder isso. Qualquer outro sofrimento é totalmente suportável, mas perder "aquela" coisa especial realmente é desesperador.
Desde aquela época eu nunca deixei de lutar por tudo o que acredito, por tudo e todos que são especiais para mim. Muitas pessoas já me falaram que lutar por certas coisas ou por certas pessoas faria com que eu me machucasse, mas eu nunca tive medo de me machucar por fazer aquilo que é o certo para mim.

E o meu pai? Bem, mesmo com meus esforços, ele viu o ferimento (sem que eu notasse), mas também viu que eu aguentei toda a dor por cima de camisetas, blusas, banhos (que a propósito, ardiam muito), simplesmente porque essa era a minha luta pra continuar com a minha liberdade intacta. Ele respeitou minha força de vontade e nunca mais falou em me proibir de subir em cima de uma bicicleta.


- Vinicius Neves
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