30 de abril de 2016

QUANDO A VIDA NÃO É FEITA SÓ DE "GHOSTING"


Muito tem se falado do termo que inventaram para designar aquela situação de quando alguém some aos poucos de nossas vidas até desaparecer completamente: o ghosting.
A gente conhece a pessoa, e em algum determinado momento da vida (cedo ou tarde) aos poucos vai perdendo o contato com ela. Aos poucos as mensagens começam a parar, aos poucos a pessoa nem se importa mais em responder, e por fim some de vez.

É doloroso, é triste, até mesmo cruel em alguns casos. Porém, é extremamente comum. Eu faço isso, você faz isso, todo mundo faz.
Não vou fingir que nunca fiz, que não faço ou que nunca mais farei - porque seria mentira das mais deslavadas.
Temos a tendência de abandonar questões e pessoas que já não são tão interessantes para nós (mesmo que sejamos para elas) sem se preocupar tanto com os efeitos colaterais nelas.
Porque? Porque julgamos que nosso tempo e sentimento é importante demais para direcioná-lo para aquela pessoa; buscamos outras que julgamos melhores para o nosso momento. Não está errado. A única pessoa a quem interessa totalmente nosso tempo e nosso sentimento é a nós mesmos. Negar isso também é hipocrisia.
Recentemente li um texto em que o autor prometia que nunca mais faria isso com os outros. Que quando fosse desligar alguém de sua vida, que teria a coragem de dizer a ela o porque disso estar acontecendo. Coitado. Vai falhar miseravelmente. Fazemos esse tipo de coisa todos os dias sem nem ao menos perceber. Sua insignificância para nós é das mais comuns.

Outra razão clara para que isso tudo aconteça é que vivemos em tempos que Chuck Palahniuk já previa em seu excelente best-seller "Fight Club":

"Somos uma geração sem peso na história. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Guerra Mundial. Nem uma Grande Depressão. Nossa Guerra Mundial é a guerra espiritual… nossa Grande Depressão é nossas vidas."

Todos andam cambaleando por aí, com sacos de pão sorridentes pelas ruas. Com fotos que extravasam nossa realidade, nos fazem parecer mais felizes do que realmente somos nas redes sociais. Há uma tentativa vã de nos fazer acreditar que somos melhores e maiores. Mas não somos.
Temos medo. Medo de nos envolver com pessoas novas, medo de sair do comodismo emocional que algumas pessoas nos proporcionam, medo de não ser feliz quando terminamos um relacionamento - fazendo com que às vezes insistamos em algo que sabemos que não vai dar certo - até o último segundo que pudermos suportar a insatisfação, a frustração, a impotência.

Como não aceitar que o ghosting faz parte disso? Como não aceitar que isso acontece todo o tempo, o tempo todo?

A boa notícia, é que apesar desse texto aparentemente pessimista, pude notar que há uma luz no fim do túnel quando me permiti refletir sobre esse assunto.
O ghosting, por mais real e presente que seja, não apaga em nada a verdade que é o sentimento verdadeiro de quem nos ama.
Estava refletindo sobre uma nova ideia para um novo livro, e de muitas coisas que lembrei foi quando minha mãe faleceu e eu ouvi de algumas pessoas coisas bem bacanas sobre ela - e que eu não sabia.
A que me fez concluir a ideia desse texto foi que quando eu tinha lá pelos meus dezessete anos, fiz um pocket show no meu condomínio com alguns amigos. Tocamos músicas famosas e animamos bem uma festa de fim de ano que fizemos por lá. Lembro que tocamos Legião Urbana, Raimundos, Charlie Brown Jr. e tantas outras.

Minha mãe sempre esteve presente nessas pequenas apresentações que fiz quando era mais novo. Shows, peças de teatros, toda essa coisa que hoje em dia não faço mais - eu tinha o suporte incondicional dela.
Nesse dia em especial ela se atrasou e não conseguiu ir. A mãe de um amiga minha encontrou com ela no elevador e disse à minha mãe que a apresentação tinha sido muito boa.

Dona Márcia sorriu pra ela e disse "Eu sei que foi maravilhoso. Tudo o que ele faz é lindo. Ele é um ótimo filho e que me dá muito orgulho.".
Quando a mãe dessa amiga me contou isso, senti aquela recordação (que não era minha) me abraçar como se fosse minha própria mãe fazendo isso. Era o tipo de coisa que ela falaria, era o tipo de apoio emocional que ela me dava. Toda vez que lembro disso, eu volto no tempo e sinto como se estivesse lá vendo essa cena.

Eu não sabia da existência desse diálogo até então.

Então, se por um lado temos problemas com o ghosting com as pessoas vivas; por outro, aquelas que amamos e nos deixam, jamais nos deixam de verdade.


- Vinicius Neves
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