4 de outubro de 2016

DELÍRIO E VENENO



Ouço um barulho vindo do corredor e fico aflito.
Ando de um lado para o outro do quarto procurando manter a mente em sã consciência. Afinal, nada daquilo fazia sentido.

Olho para a porta e espero a maçaneta girar, mas nada acontece.
Os passos vem e vão, pausam e retornam. Minha sanidade começa a duvidar do quão real é isso tudo.

Sem me conter, busco a porta e olho pela fresta: é só a moça da limpeza dando os últimos retoques no corredor cuidadosamente limpo.
Pareço um louco desvairado; suando frio à espera de algo que mais parece uma assombração. Droga, uma assombração que não tem nem nome para que possa xingar sua ausência.

Sento na beirada da cama - de costas para a porta - a fim de depositar meus pensamentos em qualquer outra coisa, desintoxicar minha atenção.
Olho para o abajur horrível e me pergunto quem escolheu essa cor - é carmim? Porque diabos sei o que é cor "carmim"? Parece cor de carne, sei lá. Não tem nada a ver com as cortinas e lençol azul. Um destaque desnecessário no ambiente.

Olho através da janela - à procura de algo que não encontro.

Outra vez na cama, olho para a parede - como se procurasse solução naquele espaço vazio. Já fazem muitas horas que estou acordado, e aquele momento retorna à mente como se fosse um martelo na memória.
Não consegui trabalhar nos relatórios que tinha que fazer. A escrivaninha padece de papéis e anotações espalhadas.
Porque escolhi justo esse hotel para ficar? Porque isso tinha que acontecer comigo?

Já são quase meia noite. Será que existe tanta pontualidade assim? O espelho desse lado do quarto me ajuda a olhar para a porta. Droga, estou olhando novamente.

Preciso tomar uma atitude; e quer saber? Isso é loucura. Não vou mais me entregar a essa doida que apareceu aqui nas últimas duas noites. Me nego a fazer parte desse fetiche, dessa maluq... Ei, ouço passos novamente. Estão vindo da escada. É o salto dela, tenho certeza. Esse barulho tem ecoado na minha cabeça nos últimos dias.

Uma gota de suor percorre minha testa.

Ouço finalmente a maçaneta se mover. A porta se abre de uma vez.
Vejo seu reflexo pelo espelho: os olhos verdes faiscando desejo rasgam minhas certezas e minha alma abandona a sensatez, me fazendo tremer de ansiedade novamente.

Ela fecha a porta sem tirar os olhos de mim e abandona em cima da cadeira aquele blazer escuro e discreto que usava por cima da roupa.
Abaixa as duas alças do vestido de algodão e ele cai perfeitamente como se desejasse o chão - e provavelmente era isso mesmo.

Ela se aproxima - e quando finalmente começo a perguntar qual era seu nome, ela me cala com as pontas dos dedos e um sorriso malicioso no rosto.

Mais uma vez ela transforma minha noite em puro delírio, até que eu caia no sono e acorde novamente sozinho com o pensamento de que o mundo é pequeno demais para nós dois.


- Vinicius Neves
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