17 de outubro de 2018

CONHEÇO UM CARA


Conheço um cara que era um dos melhores alunos da escola. Ficava entre os top 3 de notas da sala, geralmente. Sabia o que queria da vida: iria ser engenheiro, estudar em uma faculdade de grande renome com a imagem a zelar.
Ele já tinha o futuro decidido - segundo ele mesmo.

Eu, nunca fui bom aluno até ingressar em uma faculdade boa - e apenas boa. Com a imagem a zerar, e não a zelar.
Na verdade, ainda não sou bom aluno. Estudo apenas o que me dá na telha. O que realmente desperta minha curiosidade. Esse lance de estudar uma grade não é pra mim. Perco interesse fácil. Felizmente nos últimos anos minha curiosidade com as mais diversas fontes de conhecimento se ampliou bastante.

Esse cara que conheço, nasceu em uma família boa, com estrutura. Tinha pai bem remunerado, mãe carinhosa, um agradável e confortável apartamento em uma região boa do bairro em que mora. Quando fez 18 anos, ganhou um carro de presente. Um bom carro.
Sempre que saía um video-game da moda, ele ganhava um. Às vezes ostentava dois consoles da mesma geração.

Eu, de forma geral sempre tive família boa também. Mas comecei minha empreitada sozinho aos 15 anos de idade. Já morava praticamente sozinho, na maior parte do tempo. Aprendi a me virar, a fazer comida, fazer compra, cuidar da casa, por aí vai. Ninguém efetivamente me ensinou, recebi ajuda de um ou outro amigo, fui buscando informação de um canto e de outro, e fui indo.
Quando fiz 18, não ganhei um carro. Meu carro próprio, no meu nome, só viria 9 anos depois.
Video-game eu só tinha os usados, e das gerações anteriores, desde sempre. Me divertia bem, apesar de desejar os mais novos. A primeira vez que tive um video-game atualizado para a época foi a uns cinco anos atrás, quando consegui um descontão com um amigo meu que trabalhava no setor e tinha uns semi-novos para se desfazer.

Esse cara que conheço, garganteava sempre que podia que só iria trabalhar quando terminasse a faculdade. Que enquanto isso iria se especializando em várias coisas, que certamente teria um emprego excelente. Adorava falar que a faculdade que tinha entrado era referência.
Desde cedo fazia cursinho, inglês, e um monte de outras coisas que não lembro agora.

Eu trabalho desde os 15 anos. Comecei como auxiliar de estoque, mexia em caixas e peças de todos os tamanhos, cheios de poeira.
Lembro de uma camiseta que tinha da empresa, com meu nome, que um dia vesti na escola, para ganhar tempo e não me atrasar tanto para o trabalho em seguida. Um outro colega tirou sarro da minha cara, me chamando de "funcionário Viny". Vários riram.
Depois virei auxiliar de expedição. Trabalhei de recepcionista e até vendedor de aparelho e plano de celular. Não trabalhava nessas coisas porque gostava, era porque ninguém pagava minhas contas. Me humilhei diversas vezes, das mais variadas formas, para conseguir um estágio enquanto estava na faculdade - que tinha a remuneração maior que meus empregos. Não passei. Minha área não era muito amigável com o sexo masculino.
Aprendi inglês sozinho, completamente autodidata - assim como a maioria das coisas que sei fazer hoje em dia. Também arranho no espanhol e no italiano.

Sempre expliquei para esse cara, que não adiantava nada ele ter uma grande estrutura de faculdade, de cursos, de seja lá o que for e não ter experiência profissional; não saber como é o mundo lá fora, não criar malandragem para lidar com pessoas. Ele vivia dentro de uma bolha e isso seria terrível para ele. Claro que não escutou. Eu era um merda, ele era um bom aluno.

A uns dois anos atrás reencontrei esse cara que conheço. Já havia mais 10 anos que tínhamos terminado o colégio. Ele tinha se formado na faculdade, e eu não.
Me contou que o mercado de trabalho estava ruim na área dele, que desde que tinha se formado não tinha arrumado emprego, e que começaria um novo curso de engenharia para ver se melhorava. Ainda morava com os pais. Não tinha criado nada de patrimônio.
Ele passava os dias assim: sem fazer muita coisa, às vezes conseguindo um serviço de freelancer. Era isso.
Quando ele me perguntou o que estava fazendo da vida, conforme ele ia perguntando, eu ia respondendo: disse que não tinha me formado, mas que tinha me lançado no meio empresarial, sendo sócio de uma empresa já bem estabelecida e uma produtora que criei, mas que acabei desistindo porque priorizei meu tempo. Estava com carro do ano, apartamento próprio reformado, em um relacionamento saudável e feliz (hoje, é minha incrível esposa).

Esse cara que conheço disse estar feliz por mim, mas não era isso que o rosto dele me dizia.
Esse cara que conheço me excluiu depois de pouco tempo do Facebook.
Esse cara que conheço vai votar em Haddad - o candidato do mesmo partido que ajudou a ele se enfiar na merda, não investindo em infraestrutura, indústria e tecnologia no país. Criando milhões de estudantes com diploma, mas sem emprego. Com capacitação, mas com dívidas para o resto da vida.

Esse cara que conheço ainda acredita que é ótimo nas escolhas que faz.


- Vinicius Neves
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